Sinto falta de escrever antes de saber o que era conteúdo

Sinto falta de escrever antes de saber o que era conteúdo. Antes de todo pensamento poder virar uma legenda. Antes de todo sentimento precisar de um gancho. Antes de toda frase ter que ser útil, pesquisável, compartilhável ou alinhada com alguma estratégia. Sinto falta de escrever porque alguma coisa dentro de mim fazia barulho demais…

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I Miss Writing Before I Knew What Content Was

Sinto falta de escrever antes de saber o que era conteúdo.

Antes de todo pensamento poder virar uma legenda. Antes de todo sentimento precisar de um gancho. Antes de toda frase ter que ser útil, pesquisável, compartilhável ou alinhada com alguma estratégia.

Sinto falta de escrever porque alguma coisa dentro de mim fazia barulho demais para ficar em silêncio.

Não porque tinha um objetivo. Não porque precisava performar. Não porque tinha que ensinar, vender, converter ou explicar alguma coisa.

Só porque eu precisava de algum lugar para colocar o que eu estava sentindo.

Quando comecei a escrever online, eu não pensava tanto em público. Não pensava em engajamento, palavras-chave, estrutura ou se o título era forte o suficiente. Eu só escrevia.

Às vezes mal. Às vezes de forma dramática. Às vezes com sentimentos demais e pontuação de menos.

Mas era meu.

Tinha algo bonito em escrever antes de aprender que tudo podia virar conteúdo. Antes de entender plataformas, algoritmos, posicionamento, marca pessoal e todas as regras invisíveis de ser vista online.

Naquela época, escrever parecia menos produção e mais descoberta.

Eu nem sempre sabia o que queria dizer quando começava. Ia encontrando aos poucos, frase por frase.

Em algum momento, a internet mudou.

Ou talvez eu tenha mudado com ela.

A escrita virou conteúdo. As fotos viraram assets. Os pensamentos viraram ideias. As experiências viraram histórias. As histórias viraram posts. Os posts viraram estratégia.

E eu amo estratégia. Amo mesmo.

Eu amo entender por que uma mensagem funciona, como as pessoas se conectam com ela, como uma campanha se constrói, como as palavras conseguem criar sentido e movimento.

Mas às vezes sinto falta da escrita que não precisava se justificar.

Da escrita que não precisava virar nada.

Existe uma pressão estranha hoje em transformar cada parte da vida em algo visível.

Se você lê um livro, pode postar sobre ele. Se sai para caminhar, pode filmar. Se tem um pensamento, pode transformar em carrossel. Se aprende alguma coisa, pode transformar em lição.

E às vezes isso é bonito. Compartilhar pode criar conexão. Pode fazer alguém se sentir menos sozinho. Pode transformar momentos comuns em algo significativo.

Mas nem tudo precisa ser compartilhado para ter valor.

Algumas coisas podem continuar privadas. Alguns pensamentos podem ficar inacabados. Alguns sentimentos podem simplesmente existir sem virar post.

Acho que ainda estou aprendendo isso.

Talvez seja disso que eu sinta mais falta: escrever sem perguntar para que aquilo serve.

Sem pensar se combina com meu site, meu trabalho, minha voz, minha categoria, meu público, meu eu do futuro, meu eu profissional, meu eu criativo.

Só escrever porque o dia pareceu estranho. Porque lembrei de alguma coisa. Porque fiquei triste sem saber exatamente por quê. Porque a luz entrou pela janela de um jeito que me deu vontade de descrever. Porque algo pequeno aconteceu e eu não quis esquecer.

Existe uma liberdade em criar sem transformar tudo, imediatamente, em prova de alguma coisa.

Talvez a resposta não seja rejeitar o conteúdo.

Conteúdo faz parte do meu trabalho. Faz parte de como eu penso, crio e me comunico. Eu sei o valor de tornar ideias mais claras e úteis. Eu sei que existe cuidado em moldar uma mensagem para que ela chegue melhor em alguém.

Mas eu também quero guardar um lugar onde a escrita possa ser bagunçada.

Um lugar onde ela não precise ensinar. Um lugar onde ela não precise vender. Um lugar onde ela não precise ser estratégica. Um lugar onde eu possa simplesmente ser uma pessoa tentando entender a si mesma.

Talvez os dois possam existir.

A escrita profissional e a escrita pessoal. O conteúdo planejado e as notas estranhas. A estratégia e o sentimento. O trabalho e o esconderijo.

Sinto falta de escrever antes de saber o que era conteúdo.

Mas talvez o que eu sinta falta não seja exatamente do passado. Talvez eu sinta falta da permissão que eu me dava.

Permissão para escrever sem saber onde aquilo ia chegar. Permissão para ser dramática, honesta, confusa ou silenciosa. Permissão para criar algo que não precisava se tornar útil.

Então talvez isso seja uma tentativa de voltar para esse lugar.

Não completamente.

Só um pouco.

Um pequeno lembrete de que, antes de a escrita virar conteúdo, ela era uma forma de continuar perto de mim mesma.

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