Às vezes eu me pergunto quantas versões de nós mesmos carregamos.
A pessoa que fomos aos quinze anos, cheia de sonhos e confusão.
A pessoa que nos tornamos quando a vida pediu que fôssemos mais fortes.
A pessoa que somos no trabalho, tentando parecer confiante e capaz.
A pessoa que somos com a família, mais doce, mais intensa ou mais quieta.
A pessoa que somos em outra língua.
A pessoa que somos em outro país.
A pessoa que somos quando ninguém está olhando.
Será que todas elas somos nós?
Acho que sim.
Por muito tempo, eu pensei que se tornar quem você é significava encontrar uma versão final e definitiva de si mesmo. Como se um dia tudo fosse fazer sentido e eu saberia exatamente quem eu era, o que queria, onde pertencia e como deveria existir no mundo.
Mas quanto mais eu vivo, mais eu percebo que não somos uma coisa fixa.
A gente muda com os lugares onde mora.
Com as pessoas que ama.
Com o trabalho que faz.
Com as perdas que atravessa.
Com as línguas que fala.
Com os sonhos que deixa para trás e os novos que aprende a aceitar aos poucos.
Algumas versões nossas desaparecem sem uma despedida adequada. Outras ficam em silêncio, em algum canto, aparecendo de vez em quando em coisas pequenas. Em uma música. Em um cheiro. Em uma foto antiga. Na forma como reagimos a algo antes mesmo de entender o porquê.
Penso na versão de mim que começou a escrever online sem saber onde aquilo ia dar. Na versão que queria ir embora. Na versão que chegou em um lugar novo e, de repente, sentiu falta de tudo aquilo que achava que queria deixar para trás. Na versão que foi corajosa porque não tinha outra opção. Na versão que ainda está aprendendo que ser sensível não significa ser fraca.
Às vezes sinto falta de quem eu era.
Às vezes sou grata por não ser mais ela.
Talvez essa seja uma das coisas mais estranhas de crescer. A gente se perde um pouco e depois se encontra de novo, mas nunca exatamente da mesma forma.
E talvez tudo bem.
Talvez a gente possa ser muitas coisas em uma vida só.
Filha. Amiga. Escritora. Profissional. Iniciante. Estrangeira. Sonhadora. Uma pessoa cansada tentando de novo. Uma mulher se tornando mais honesta consigo mesma.
Talvez o objetivo não seja escolher uma versão e ficar nela para sempre.
Talvez o objetivo seja conseguir se reconhecer em todas as mudanças.
Olhar para trás e dizer: sim, aquela também era eu.
E olhar para frente sem precisar saber exatamente quem vamos nos tornar depois.
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